quarta-feira, 25 de março de 2015

XCeará 2014

 Leia a História Completa O final de ano estava chegando e a vontade de voar estava grande. Não consegui ir nas etapas do Brasileiro de Asa Delta de Brasilia e Andradas por motivos de trabalho. Então comecei a pensar se faria uma trip de voo aqui no Espírito Santo. Pensei na falta de parceria, pois sou um dos poucos pilotos de asa aqui no Estado e certamente seria uma trip solitária. Isso desanima um pouco, pois não tem ninguém para ficar contando as mentiras... eheheh.

Eu sempre tive o sonho de fazer uma viagem para o Nordeste e voar naquelas condições que os pilotos voam quilometragens incríveis. Liguei para o Chico Santos e perguntei como seria o XCeará e resolvi que tentaria levantar uma grana transportar a asa e participar do evento.... Continue lendo...



Para diminuir os custos perguntei se teria como pegar uma carona com alguém que fosse levar as asas e fui colocado em contato com o Gilson, do Rio de Janeiro, que prontamente aceitou desviar o percurso dele da BR 116, para a BR 101 e me resgatar aqui no Espírito Santo. O único "problema" é que ele queria ir um pouco antes para voar em Tacima. Uhuuuu!!! Melhor que isso não tinha como, realizar 2 sonhos de uma vez só, Quixadá e Tacima! Beleza, dito e feito.

Chegamos em Tacima já bem tarde, por volta das 23h, mas não existe hospedagem em Tacima, tem que ir para Araruna, uma cidadezinha bem perto. Então, pra quem quer ir pra lá, coloque o GPS do carro para Araruna e não Tacima. Lá encontramos Talis, Jacques e Marcelo Alves que haviam chegado mais cedo e já estavam recolhidos no quarto da pousada. Iríamos voar no dia seguinte e eu estava exausto depois de mais de 30 horas dentro do carro, fico imaginando o Gilson, que estava pelo menos 7 horas a mais do que eu, pois veio do Rio. Isso mesmo, fizemos a viagem direto sem paradas para dormir, só paramos para comer e ir ao banheiro, mas não recomendo isso a ninguém.

Acordamos, tomamos aquele café da manhã e fomos para a rampa. A rampa é baixa, mas tem um visual incrível e a decolagem é natural de pedra! Para voar lá é preciso saber decolar com vento forte, pois o vento quase não dá trégua, quando muito dá uma diminuída por uns 5 segundos e depois entra rasgando de novo. Todos decolaram e eu fiquei por último, pois tive que coordenar o resgate para mim e para o Gilson. Entrei em contato com o David, do Rio Grande do Norte, que ficou de olhar as nossas páginas compartilhadas do SPOT caso o resgate precisasse.

Eu não sou um cara que tira muitas fotos, mas me esforcei ao máximo para fotografar sempre. Também tenho o costume de cada vez que tiro uma foto aperto umas 3 ou 4 vezes para garantir que a foto vai sair. O resultado é um monte de foto repetida...kkkkk.. Abaixo tem o álbum de fotos dos voos em Tacima.


Enfim decolei! Não quero ficar narrando cada detalhe de cada voo, mas acho que o primeiro vale a pena relatar, pois foi um voo inusitado, cheio de percalços em que eu aprendi muito e gostaria de compartilhar.

Os caras não estavam ganhando muito e após alguns minutos eu estava acima de todos. Não sei se isso era bom ou ruim... pois não havíamos combinado uma rota, eu não conhecia o local e não sabia para onde ir. A única coisa de que me lembrava era do Talis falando que se tivesse difícil na frente da rampa, havia uma cordilheira atrás que tinha um lift melhor. As térmicas derivavam muito e eu decidi que pularia para a cordilheira de trás. Isso foi um erro, pois deveria ter esperado a galera e ido junto, além disso, não calculei muito bem e acabei ficando muito para esquerda, onde o lift não era muito legal e eu só perdia altura. Forcei para direita para a ponta da cordilheira de trás e fui ficando baixo até que peguei um rotor absurdo de uma pedra. Achei que a viagem ia acabar por ali, comigo acidentado. Graças a Deus passei o rotor dela e cheguei no lugar certo do lift.

Enquanto isso Gilson e Talis já estavam alto e passando por mim. Fodeu... agora ia ser sozinho mesmo. Eu estava baixo, mas ainda estava em voo no lift da cordilheira de trás da rampa. Como se não bastasse um gavião enorme e azul escuro veio me atacar... o que mais eu queria?... kkkk.... Gritei até ficar rouco e o bixo pelo menos não rasgou a minha asa. Eu estava sustentado, mas não passava da altura do platô... que dificuldade... resolvi que teria que arriscar um pouco e fui deixando derivar para esquerda... ufa... consegui sair dali, mas ao invés de ir para Monte das Gameleiras (a direita), fiquei em cima do platô (a esquerda), numa área que me dava calafrios... muita pedra e aquela vegetação de caatinga nada amistosa. Mais uma vez pensei em outra coisa que o Talis me disse antes de decolar: - No início do dia fique na térmica! Não saia! Ela vai derivar e você vai na deriva!...

Teve momentos que dessa travessia do platô que eu ficava pensando se o voo inteiro seria daquele jeito, sem pouso, cheio de pedra, turbulento, etc.. Putz... eu estava tenso e já estava todo doido, quando vi que o platô ia acabar. Ufa, me animei novamente e pensei, aí sim!! Comecei a ouvir os caras no radio, mas eles já estavam longe. O voo já estava mais constante com térmicas enormes e tiradas longas. Quando cheguei numa região mais povoada eu percebi que estava esgotado. Pensei se iria continuar no voo ou não. Nesse momento Talis e o Gilson estavam em Lagoa Nova e chamaram para eu continuar, mas já era tarde, eu não aguentava mais.

A 1500 metros de altura desisti de continuar e resolvi que pousaria em Currais Novos, afinal, tinha um aeroporto para eu pousar! Por incrível que pareça o vento estava zerado no pouso e foi difícil definir a direção certa. Nem precisa dizer que eu entrei no pouso a milhão... eheheh... cruzei toda a área de manobra do aeroporto no efeito solo que não parava... quando apliquei o stall ela não parou totalmente e dei aquela cornetadinha de bico tradicional. Pois é, não se ganha em tudo. Após me levantar e começar a levar a asa para uma sombra, entrou aquele ventinho perfeito para pousar... parecia até gozação com a minha cara... kkkk.

A pesar de tudo, voei cerca de 100 km sem nenhum conhecimento prévio da região, batendo então meu antigo recorde pessoal que era de 74 km (em linha reta). Não sei se foi devido a tensão, ou se o cinto estava um pouco apertado, eu fiquei com tantas dores nos pés que tive a maior dificuldade de carregar a asa até a sombra. Nos outros dias eu afrouxei um pouco o ombro e acho que melhorou, mas também fiquei menos tenso.

Aprendi que ouvir o Talis é importantíssimo, mesmo que pareça que não... kkkkkk.. O Talis é um voador fora de série. Também aprendi que não se deve subestimar o rotor. Estou com muita raiva de mim mesmo por ter me colocado naquela situação, por sorte deu tudo certo, mas poderia ter sido diferente. Depois do pouso ruim no aeroporto fiquei muito pensativo sobre o que fiz de errado, ou o que eu estava fazendo sempre de errado, pois já faziam alguns pousos que não estava saindo um stall perfeito, mesmo entrando com velocidade. Isso foi bom, porque todos os outros pousos durante a viagem foram perfeitos. Eu acho que foi uma série de fatores para eu errar os pousos e muitos dos fatores de pousos anteriores não estavam relacionados, pois eram dificuldades específicas de cada local. E para quem conhece, sabe que no Espírito Santo não á fácil colocar uma asa de competição no chão.

Algumas coisas me ajudaram a pousar melhor:

1. Durante a aproximação, não confiar muito no que o computador de voo está dizendo sobre a direção do vento, pois aquilo é para ajudar, mas não é extremamente exato e também o vento vai mudando de direção conforme vamos baixando a altura e aquilo não acompanha muito bem. Sendo assim, nos pousos seguintes procurei ficar mais atento a pressão na barra e a velocidade da asa na aproximação em diversas direções, para poder entrar na direção mais ajustada possível contra o vento. Por incrível que pareça isso fez muita diferença. Isso pode ser um pouco mais difícil quando estamos a muito tempo sem voar, pois perdemos um pouco de sensibilidade de voo.

2. A segunda coisa foi uma dica do Gilson e do Talis que na verdade é meio óbvia e aprendemos isso quando iniciamos nas aulas, mas vamos esquecendo aos poucos. Não olhar para baixo depois que deu o stall, pois temos a tendencia de direcionar a asa para onde estamos olhando. Depois que der o stall, segura ela em cima e não abaixa a mão, não olha pra baixo... ehehehe... se não ela cai de bico. Isso é um pouco relativo a cada pouso e meio difícil de implementar depois que estamos viciados em fazer errado. Tem que lembrar disso na aproximação e também milésimos de segundos antes de fazer o stall, que é pra não amolecer.

3. A terceira e última coisa é cadência. Voar mais! Treinar mais! Isso com certeza ajuda muito.

Bem.. se você ainda está lendo vamos continuar a história. Depois do primeiro dia fiquei tipo de ressaca. Eu não sei se todo piloto tem isso, mas quando eu passo por muita adrenalina e desgaste físico em um voo, no outro dia parece que estou de ressaca de adrena...kkkkk. Pra uns funciona tomar uma cerveja pra curar a ressaca, pra mim não, tenho que descansar. E foi o que eu fiz. A condição estava mais ou menos e tinha previsão de melhora. Ficamos dois dias sem voar. No quarto dia o combinado era que o Talis e o Gilson iriam tentar chegar em Quixadá voando, se ficássemos no meio do caminho o resgate nos pegaria e iríamos de carro pra Quixadá. Mas a condição não amanheceu legal, decolamos tarde para ir até Quixadá. Eu fui o segundo a decolar depois do Marcelo. Dessa vez eu tinha uma rota no meu computador de voo e tinha estudado bem a rota a ser feita.

O voo foi mágico, fiquei baixo 2 vezes uma antes do platô de Lagoa Nova e outra logo depois, acabei fazendo a maior quilometragem do dia, 180 km. No pouso em Paraú, RN juntou uma galera e eu virei a atração da cidade. Guardei rapidamente as coisas no cinto pra não dar mole e comecei a sessão de fotos...kkkkk.. tirei foto com todos os moleques e com uma cambada de gente da cidade. Foi a maior diversão. Nem tinha terminado de desmontar a asa e ouvi a voz do Gilson no rádio! Uhuuu!!! Show!! Fomos direto para Quixadá!

Chegamos em Quixadá já era 1 hora da manhã. Ainda não havia começado o evento e estava marcado para os pilotos chegarem no dia seguinte. Eu e Gilson ficamos num hotel horrível que eu nem faço questão de lembrar o nome. Estava sujo, o ventilador parecia a macaca konga de tão cabeludo. Tinha tanto mosquito que eu acho que fiquei com anemia...kkkkkk.


Não sei porque não estou conseguindo incorporar um dos albuns de fotos do XCeará 2014, então quem tiver interesse em ver as fotos siga o link abaixo:

https://plus.google.com/+HenriqueFrasson/posts/apkAYQFdE3r

O primeiro dia do evento foi de voo treino. Foi definido um goal em Madalena (aproximadamente 100 km) e foi combinado que todos iriam voar para lá. Mais uma vez eu estava muito cansado e não voei. Deixei para voar nos dias onde teríamos provas válidas.

Voar em Quixadá não é uma coisa simples, já começamos com uma decolagem tensa, com ventos de quase 40 km ou até mais de 40 km na rajada, a rampa de madeira a pesar de ser bem localizada é velha e dá uma sensação de que vai quebrar. O vento entra de baixo da asa e se você não tiver alguém para segurar os cabos é quase impossível decolar dali. A outra opção é decolar da rampa natural, mas aí o problema é que a rampa é rotorizada o que torna a decolagem uma incógnita, pode ser excelente, ou pode ser apavorante se você tiver que enfrentar uma turbulência. Eu preferi decolar da rampa de madeira todos os dias, pelo menos ela é alta e a asa, mesmo que tome uma tendida, não vai bater a ponta no chão.

Nenhum dos dias que eu voei em Quixadá tive um começo de voo legal, sempre foi turbulento no máximo e as primeiras térmicas não rendiam. Quando se olha a apenas 1200 metros o que você vai ter que atravessar chega dar uma angústia. Tem uma cordilheira cheia de pedra que dá a impressão de não ser possível atravessar a apenas 1200 metros, mas é possível, o ideal é derivar o máximo possível junto com a térmica e atravessar na boa. Depois dessa primeira parte o voo começa a se abrir e as áreas de pouso são vastas até Madalena. Ao chegar em Madalena começa novamente a ficar restrito de pouso e deve-se preparar para atravessar o platô de Mon Senhor de Tabosa. Nesse platô muita gente não consegue passar e acaba pousando em Tabosa. Eu mesmo fiquei lá no primeiro dia.

Eu nunca havia urinado em voo até então, mas antes do Platô de Tabosa em dois dos meus voos não estava mais aguentando de vontade. Olha... vou dizer que não é uma tarefa das mais fáceis fazer um xixizinho em voo. Abrir o ziper do cinto, abaixar a calça, colocar o pinguelo para fora e dar aquela aliviada parece ser uma tarefa simples, mas não é. Primeiro, na condição de voo que se apresenta não dá para ficar tirando a mão da barra, pelo menos eu não tiro, depois abaixar a calça sem olhar e de luva é F***, a camisa agarra, o cinto agarra, a cueca agarra, parece uma conspiração para você não conseguir. Fora isso, ainda tem a questão da altura que se está em voo. O ideal é tentar fazer isso quando se está roscando uma térmica e já se está numa boa altura. Também deve-se usar uma calça que seja fácil de abrir, nada de ziper ou botões, tem que ser de elástico e mesmo assim é difícil. Ao conseguir colocar o pinguelo para fora, basta deixar fluir e a sensação será de total relaxamento!... kkkkkk

Atravessando o platô de Tabosa o voo abre-se novamente e os pousos são vastos. Esse é o caminho que vai até Nova Russas. Esta é uma das melhores partes do voo, pois vencer o platô dá uma sensação de que as coisas ficarão mais fáceis. Em Nova Russas é quase impossível de pousar, existe uma térmica residente que não para de bombar.

Após Nova Russas deve-se decidir se você vai fazer a rota mais curta ou a mais longa. A mais curta obviamente é a que não tem pouso... ehehehe. A mais longa passa por uma cidadezinha chamada Poranga que fica no alto do segundo Platô na rota do voo. Eu nem pensei, fui para Poranga, o resgate é mais fácil e a tarefa menos perigosa. A sensação é boa de chegar na Cidade de Poranga, até que você olha o trecho que vai ter que atravessar depois de Poranga. Parece impossível, é simplesmente um mar de Jurema (vegetação espinhosa da Caatinga). Não se vê nada, exceto uma estrada de terra em linha reta que segue para Pedro II e por incrível que pareça, vai ser seu único pouso por quilômetros. Pra pousar numa estrada de terra de asa delta tem que estar afiadíssimo, então o negócio é continuar o voo apenas se você se garante.

Eu só cheguei nesse ponto no meu último voo, todos os outros eu não havia passado de Nova Russas, o que para mim, já é uma façanha. Mas estava rolando um fenômeno muito interessante, formaram-se nuvens do tipo Cirros, (rabos de galo), mas não eram cirrus extremamente altos. Em baixo dessas nuvens sempre tinha uma térmica "salão". E no caminho havia uma sequência dessas nuvens. Já era meio tarde mas eu resolvi arriscar e tentar chegar em Pedro II, mesmo cabreiro com o mar de jurema. Pensei... se der m*** tento pousar na estrada.

Para minha sorte, passei muito bem, sempre alto e cheguei em Pedro II com bastante altura, graças a Deus. No pouso de Pedro II o Talis já estava desmontando a asa e sinalizando a direção do vento. Foi um pouso perfeito, para coroar o meu último dia de voo. Que sensação louca, voar 279 quilômetros de asa delta. Não sei se algum dia vou quebrar esse meu recorde pessoal, mas o voo ficou registrado na minha memória para sempre. Uma coisa tenho certeza, não tenho muita vontade de voar o trecho entre Poranga e Pedro II novamente. Acho que se chegar a voar em Quixadá novamente vou optar por voar até Crateús, ou alguma cidade a beira do segundo platô. Mesmo com a quilometragem impressionante, não acho que valha o risco novamente.

Demorei para escrever este relato e agora fico pensando que vou posta-lo totalmente fora de hora... Mas... o corre corre do dia a dia não nos deixa muita opção, não consegui terminar isso antes e ainda tive que resumir o final da história. Espero que alguém talvez ache interessante. Os voos que fiz na viagem estão todos no site xcbrasil.org, basta buscar pelo piloto Henrique Frasson. De qualquer forma, os links para os voos estão logo aí abaixo:

Voos de Tacima e Quixadá 2014